Andrés De Nuccio

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Caminho espiritual: você não ouve o próprio sotaque

há 2 horas
6 min de leitura

Você fala com sotaque.


Não importa de onde você seja. Para alguém de outra cidade, você tem um jeito de puxar certas vogais, uma entonação no fim das frases, palavras que você usa e a pessoa não usa.


E você nunca ouviu isso. Não porque não preste atenção. Porque o instrumento que ouviria é o mesmo que fala.


Guarde essa imagem, porque este texto inteiro cabe nela.


O primeiro motivo, e ele vale para todo caminho espiritual


Todo trabalho com a própria mente tem esse problema de origem. Você examina a sua mente com a sua mente.


Enquanto o desvio é pequeno, você não vê. Quando ele já é grande, ele virou normal, e você continua sem ver.


Repare que a sua vida já provou isso para você várias vezes. Aquele relacionamento que, de fora, qualquer pessoa enxergava, e que você levou seis anos para enxergar. O emprego que estava destruindo você e que você defendia com argumentos elegantes. A obsessão de uma época que hoje parece transparente.


Em nenhum desses casos faltou inteligência. Faltou um segundo par de olhos, e não existe treino que substitua isso, do mesmo jeito que não existe treino que faça você ouvir o próprio sotaque.


O segundo motivo: a memória não é fiel ao que importa


O gargalo do caminho espiritual nunca foi entender. É lembrar.


Você entende isto que está lendo agora, inteiramente. Amanhã de manhã, no meio do trânsito, na hora exata em que essa compreensão serviria, ela não vai estar disponível. Não porque você não ligue. Porque a vida é barulhenta.


Pense na última senha nova que você decorou. Você repetiu, guardou, teve certeza. Duas semanas depois, sem uso, ela sumiu.


O que é mais importante para você não tem privilégio nenhum na sua memória. A conta de luz, o exame da sua mãe e uma reunião chata competem em pé de igualdade, e ganham, porque têm data.


Por isso a lembrança precisa de alguma coisa que venha de fora e a renove. Uma aula na quinta. Um encontro. Alguém que vai perguntar como foi a sua semana. Sozinho, com boa vontade e sem nada externo, a coisa mais importante da sua vida se apaga em duas semanas.


O terceiro motivo: no platô, sozinho, a conclusão é sempre a mesma


Todo aprendizado longo tem um trecho em que nada acontece.


Pergunte a quem estuda um idioma. Nos primeiros meses o progresso é visível toda semana. Depois vem um ano inteiro em que a pessoa estuda igual e sente que não avança um centímetro. Quem tem professor atravessa, porque alguém diz que isso é esperado. Quem estuda sozinho conclui que não tem talento e para.


No trabalho com a mente é idêntico, e o platô costuma chegar entre oito meses e um ano. A prática fica sem graça, não tem insight, não tem quietude, não tem novidade.


Sozinho, sem ninguém para dizer que aquele trecho é assim mesmo, a pessoa chega à leitura que a experiência interna oferece, e essa leitura é sempre a mesma: comigo isso não deu certo.


E ela para justamente ali.


O buscador solitário é recente na história do caminho espiritual


Aqui uma objeção sobe em quem leu bastante, e ela é boa.


Eu convivi com lugares onde esse tipo de vida acontece, e o que se vê lá dentro desmente a imagem. Existe um mestre. Existe horário, existe trabalho repartido, existe uma casa cheia de gente fazendo a mesma coisa na mesma hora, há séculos. O eremita absoluto é figura literária, e a estatística dele é próxima de zero.


Rastreie a origem dessa imagem e você vai encontrar uma data recente. Ela aparece quando o conhecimento vira mercadoria distribuível: primeiro o livro barato, depois o curso gravado, depois o vídeo. A partir daí ficou possível estudar um assunto sem jamais cruzar com outra pessoa que o estude, coisa que nunca tinha existido em nenhuma época.


Para compreender, esse arranjo foi um triunfo. A quantidade de gente que hoje entende bem esses assuntos não tem precedente. Para praticar de forma continuada, ele fracassou.




Aula gravada

Uma prática de dois minutos, sem custo

O que está escrito neste artigo eu conduzo em vídeo, com uma prática guiada, numa aula gravada, inteira.


Ilustração do artigo

Eu não quero guru, e não quero grupo nenhum


Esta é a objeção que de fato importa, porque ela é a sua, e eu tenho a mesma alergia.


Repare no alvo real dessa objeção. Ela mira um formato de grupo, com hierarquia e verdade fechada, e não mira a presença de outras pessoas. Entregar a própria autonomia a alguém é uma coisa. Ter dois ou três interlocutores que atravessam o mesmo caminho é outra bem diferente, e com essa segunda ninguém precisa concordar com nada.


O teste é simples e você aplica em qualquer lugar, em uma tarde. Discorde de alguma coisa em voz alta e veja o que acontece. Se houver custo em discordar, se aparecer uma explicação pronta para a sua discordância, se existir alguém ali que não pode ser contrariado, o lugar é de submissão. Se a discordância for tratada como conversa normal, é companhia.


Sobre isso eu tenho uma medida própria de sucesso, e ela é bem pouco lucrativa: se depois de um tempo comigo a pessoa continua precisando de mim, o meu trabalho falhou. Admirador é o resultado que eu menos quero produzir.


Na Confraria da Mente, quando eu pergunto o que mais pesa, as aulas quase nunca aparecem em primeiro lugar. O que aparece é ter deixado de carregar esse assunto sozinho.


E repare numa assimetria que a gente nunca examina. Você aceita depender de dezenas de pessoas desconhecidas para o pão do seu café da manhã, e acha vergonhoso depender de alguém para a sua vida interior. Procure a razão dessa diferença. Ela não existe.


Falei isto aos confrades semana passada:


veja quanto foi dado, ninguém recebeu mais presentes do que você, ninguém deu a você presentes melhores do que o universo que deu todo o universo, todas as pessoas, todas as circunstâncias, todos os desafios, tudo, você é abençoado, você é abençoada [...] tome um banho sentindo a benção do que está fazendo, de poder fazer, de poder existir, de poder ser, de poder tomar um banho, aguente, aguente o bem estar

Sêneca escrevia ao amigo Lucílio que ninguém consegue viver bem olhando apenas para si mesmo, e recomendava escolher alguém para funcionar como testemunha interna, alguém diante de quem a pessoa vivesse como se estivesse sendo vista. A presença de outro sustenta a direção que a gente sozinho abandona sem perceber.


Referência: Sêneca, nas Cartas a Lucílio, recomenda escolher alguém cuja presença sustente a conduta escolhida, e sustenta que ninguém vive bem voltado apenas para si.


E se você não quer grupo nenhum? Faça isto


Parte de quem está lendo não vai entrar em grupo algum, seja por feitio, seja por momento de vida. Esta seção é para você, e ela vale tanto quanto tudo o que veio antes.


Uma pessoa resolve boa parte do problema. Procure alguém com quem esse assunto caiba numa conversa, e combine um telefonema por mês, com data marcada.


Se não houver ninguém, escreva. Um caderno faz parte do serviço de uma testemunha, e não custa nada.


E programe um alarme mensal no celular, com o mesmo peso que você dá a uma consulta marcada. O que renova a lembrança precisa estar fora da sua cabeça, e um alarme está fora.


Nada disso é o ideal. Tudo isso é muito melhor do que nada.


Peça que alguém pergunte


Escolha uma pessoa e peça um favor específico: me pergunta, daqui a um mês, como está indo aquilo que eu estou tentando fazer.


Repare que isso é diferente de contar. Contar é um ato seu, que termina quando você termina de falar. Pedir que perguntem cria uma data no futuro em que alguém vai olhar.


Você vai sentir vontade de não fazer isso, e vai parecer exposição. Faça mesmo assim, uma vez.


Quem tem o seu histórico costuma achar humilhante pedir ajuda depois de tantos anos de leitura, como se a essa altura a coisa já devesse estar equacionada. É precisamente esse constrangimento que congela a pessoa no ponto em que ela está. Entre todas as pessoas que eu vi avançarem de verdade nisto, inclusive os meus próprios professores, não me ocorre uma única que tenha feito o percurso sem ninguém ao lado. Comigo não foi diferente.


De todos os orgulhos, o de não precisar é o que cai por último, e é o que sai mais caro.

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